quarta-feira, dezembro 03, 2008

Do desperdício à recessão

Com a devida vénia ao Diário de Aveiro
Durante as últimas décadas, as sociedades viveram essencialmente do desperdício, e para o desperdício. Gerou-se uma espécie de cultura do “usa e deita fora”, que a par de um invólucro de novas tecnologias, fazia crer que se estava a criar o “homem novo” capaz de enfrentar todos os desafios do século XXI. Como se explica então, que de repente tudo se transforme em ilusão? Porque se desmoronam economias a nível mundial, até aqui interpretadas como modelos ímpares, e de repente nos deparamos com uma avassaladora crise de mercados?

Efectivamente, este “homem novo” dotado de inteligência artificial, rodeado da mais alta vanguarda da inovação e da tecnologia, sabe tudo sobre números, memorizou todas as teorias sobre preços, mas ignorou quase tudo sobre “valores”. Aqui, reside a chave dos grandes problemas mundiais da actualidade, e só no reganhar da formas e dos conteúdos que nos são transmitidos pelos valores até agora menosprezados, poderemos almejar alguma mudança, e tentar encontrar um ponto de equilíbrio que, aproveitando o que de melhor este “homem novo” alcançou, não esqueça os princípios milenares do conhecimento e da sabedoria.

Antes de mais, o “homem novo” tem de voltar a reflectir sobre tudo o que é natural e sobre tudo o que a natureza nos oferece, e acima de tudo, terá de reaprender a respeitar tudo o que é natural e tudo o que essa mesma natureza ainda tem para nos oferecer.

O “homem novo” terá de perceber que as mesmas hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, ou que fazem uma árvore dar frutos três vezes por ano, obrigando sempre pelos seus cálculos, a que a natureza “renda” mais, são as mesmas que lhe provocarão distúrbios irreparáveis de saúde e de bem-estar. Produzir muito em pouco tempo, e produzir muito em pouco espaço, é o mesmo que falar da moderna “produção intensiva”, que temporariamente deu lucro, mas deixou os campos ao abandono e retirou qualidade aos bens de primeira necessidade, todos eles provenientes da terra.

O mesmo será traduzido pela cultura no nosso país, do eucalipto. Uma árvore nova, e importada portanto, que substituindo árvores de menor e mais lento crescimento, como os antigos castanheiros ou as antigas nogueiras, gerou uma ilusão de lucro fácil, não qualificado, nem podendo ser hoje valorizado, pela falência dos solos que gerou, pois como se sabe, o eucalipto é desadequado aos nossos solos, que pelas enormes quantias de água que absorve, tudo seca à sua volta!

Assim, observando a própria natureza, podemos perceber melhor o que encaminhou este “homem novo”, aparentemente tão bem preparado para novos desafios, à falência do modelo que criou. O “homem novo”, não calculou a sua ganância, não teve escrúpulos, e não olhou a meios para atingir os seus fins, envolvendo-se numa espécie de autodestruição, que finalmente entrou em declínio, e quer queiramos quer não, entrando agora em recessão.

Esta é a realidade dos dias de hoje, um pouco por todo o mundo: a recessão.

Todos nos queixamos da crise, todos nos lamentamos dia após dia. Talvez daqui a pouco mais de uma década, convenhamos que esta terá sido a crise mais proveitosa de todos os tempos. Se soubermos aproveitar a crise, para uma verdadeira mudança de políticas, e para uma verdadeira mudança de formas de “saber ser” e de “saber estar”, no que ainda nos sobra da nossa Terra, teremos por certo um futuro melhor, ainda que passando por alguns sacrifícios.

Assim poderá ocorrer, também, numa nova conjuntura internacional, com novas formas de ver o Mundo, se soubermos integrarmo-nos, respeitando a identidade de cada um, e onde derrotados os grandes imperialismos que marcaram o século XX, ressurja uma nova ordem da cooperação entre muitos, que estabeleçam um novo rumo mundial.

Susana Barbosa
1ª Signatária do Partido da Liberdade
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

3 Comments:

At 9:35 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Assim é, com efeito. Esquecidos os Valores, o “homem novo” não passa de um autómato cujo “chip” o condiciona numa escravidão consumista para “usar e deitar fora”.
É fundamental que se reencontre com a Natureza e com o seu Semelhante, pois é este o único caminho que o conduzirá à verdadeira Liberdade, a Liberdade responsável.
A Humanidade tem evoluído, científica e tecnicamente, nos últimos anos, como nunca evoluiu em toda a sua história. Mas, inequivocamente, regrediu moral e espiritualmente, em proporção semelhante. Terá, agora, que decidir quanto ao caminho a percorrer no futuro: continuar na direcção do abismo ou escolher o salto qualitativo para a uma forma mais Nobre e mais Elevada de Vida.

 
At 5:20 da tarde, Blogger Simão Salgado said...

O que faz falta não é uma "Nova Ordem", a solução reside precisamente no seu oposto, ou seja, na Velha Ordem, ou ordem antiga. O problema está bem identificado e chama-se: LIBERALISMO. A fim dos valores começou com o individualismo e com o humanismo.

 
At 6:54 da tarde, Anonymous Malatesta said...

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