Novos-ricos, novos-pobres
Antes tínhamos novos-ricos, agora temos novos-pobres. E é tão grave a inversão material, quanto a inversão de princípios e valores que se implantou na nossa sociedade. Se antes havia a ideia de que se era rico porque se preservavam e valorizavam os patrimónios, e porque pela via do trabalho, da criatividade do investimento traduzida na «arte e engenho» e do mérito alcançado, hoje, espera-se sentado pela sorte para se ser rico, talvez por um euro-milhões, ou talvez por conseguir um simples telefonema, que acerte uma estúpida pergunta, de um desses programas cor de rosa que os «média» tanto gostam de apresentar, ficando-se rico num minuto!
Transformámo-nos numa sociedade de «pobres culpados», onde já nem se apontam as faltas de oportunidades ou de exclusão social, como causas justas de luta contra a pobreza. Aceitam-se histórias de políticos corruptos ou de dirigentes oportunistas do sistema, de forma passiva e recorrente, como se de um novo episódio de telenovela se tratasse. Aceitam-se as falências das empresas ou das famílias, de forma entediada e adormecida, sem reparar que estamos a ser «enredados» por um sistema socioeconómico injusto, aliado a políticas públicas alimentadas por um ciclo vicioso de visões cada vez mais distorcidas da realidade.
Os «novos-ricos» são hoje os oportunistas deste sistema decadente e permeável à intromissão dos valores do facilitismo, e dos «abutres» que sobrevivem à custa deste apodrecimento social. Os «novos-pobres» são hoje provenientes das classes médias que até há bem pouco tempo possuíam vidas «estruturadas e estabilizadas», mas que se deixaram «afunilar», por um lado, pelas dificuldades do aumento generalizado do custo de vida, e por outro lado, pelo próprio assédio a soluções fáceis e sem futuro que o sistema lhes proporcionou, como o recurso ao «crédito num minuto» a taxas brutais e insuportáveis.
E toda esta situação se vai agravando em cada dia, sob cortinas tanto mais sofisticadas quanto mais gastas, até ao dia em que «o pano cai». Já não há como manter escondida a realidade, a crise está verdadeiramente instalada, e pior que tudo, a crise existe em Portugal, na Europa e no Mundo. O petróleo continua a aumentar, os cereais continuam a escassear e o desemprego só não aumenta todos os dias, porque os nossos desempregados emigram. O nosso país, que está sempre na cauda da cauda desta Europa, defendida pelos interesses dos mais ricos, e assim sendo fará sempre parte dos elos mais frágeis, e é a esta «sociedade» que temos de agradar, indo ao encontro dos valores que ela cultiva. Enquanto nós deixarmos, e enquanto ela conseguir ser poder!






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