quarta-feira, dezembro 17, 2008

Casa Pia – o Céu e o Inferno

Com a devida vénia ao Diário de Aveiro
«É NECESSÁRIO DIZER BASTA, É URGENTE NÃO ESQUECER, E CONTINUAR A APONTAR O DEDO AO MUITO QUE VAI MAL, POIS NADA NESTE MUNDO MUDA SE NÃO HOUVER QUEM TENTE!»
Se durante muitos anos, pensámos que a Casa Pia representava o Céu e um porto de abrigo para centenas de crianças e jovens, hoje sabemos que infelizmente para muitos deles, a Casa Pia foi, e continua a ser também um Inferno, cenário de episódios até há pouco tempo inacreditáveis, e de crimes hediondos que até hoje não cessam de acontecer!

Ainda na passada sexta – feira, fomos mais uma vez surpreendidos com a notícia dos distúrbios que ocorreram no interior do Colégio Pina Manique, dos quais resultou a morte por esfaqueamento, de um aluno da Casa Pia, que ao que se consta através das próprias palavras da presidente do conselho directivo, Joaquina Madeira, se tratava de um «excelente aluno, mediador de conflitos quando existiam, um aluno doce». A presidente do conselho directivo explicou ainda que existe segurança 24 horas por dia no colégio, «oito (seguranças) permanentemente», e que estes estavam presentes no colégio à hora do incidente!

Mais uma vez, a revolta e a injustiça tomaram lugar na Casa Pia, e nós cá fora, temos o direito de interrogar: como é isto possível?

Constata-se que neste momento, a Casa Pia tem três mil crianças e jovens a frequentar os seus colégios e 1.300 funcionários, dos quais 600 são professores. Não será tempo de repensar este modelo e de reorganizar esta instituição?

O nosso Estado tem culpa na manutenção desta instituição, nos moldes organizativos e nas vicissitudes que ela representa. Afinal de que estão à espera para extinguir de uma vez por todas esta penosa realidade?

Não é saudável às crianças e jovens, continuarem a ser rotulados, e pior ainda continuarem a sofrer na pele, pela má reputação e por acontecimentos que não garantem o direito à sua estabilidade e à sua segurança. A Casa Pia não pode continuar a funcionar como um armazém de crianças, onde as providências que dizem ser tomadas não se mostram suficientes para impedir acontecimentos trágicos, continuando a não conseguir controlar as entradas e as saídas dos menores, assim como não consegue controlar o acesso de estranhos, como comprovadamente se conclui.

É pois urgente, que todos os responsáveis directos e indirectos na gestão da Casa Pia, assumam de uma vez por todas, a necessidade de mudança. Diz-nos a experiência, que a centralização do que quer que seja, quase nunca resulta, e muito menos resultará quando se trata da aglutinação de crianças e jovens que por si só já exigem uma atenção redobrada, dadas as condições precárias da sua própria condição de vida, e dados os problemas que à partida já pesam no seu curto tempo de existência.

A criação de instituições de apoio às crianças e jovens carenciados, de menor dimensão, poderá ser uma via alternativa. Espalhar essas instituições um pouco por todo o país, com modelos mais modernos de gestão autónoma, ao invés de concentrar em Lisboa, numa só instituição, e com uma gestão totalitária, também poderá ser outra alternativa, para fugir ao protótipo de “armazenamento”, aliado aos processos de administrações pesadas, burocráticas e ineficientes, que hoje observamos na Casa Pia.

Será assim tão difícil perceber, que o antigo modelo Casa Pia está em tudo desajustado? Bem sabemos que não será fácil raciocinar a mudança, mas mais difícil é continuar conviver no nosso país com realidades como esta, que a muitos continuam a causar enorme dor, e que a todos nós devem envergonhar. É necessário dizer basta, é urgente não esquecer, e continuar a apontar o dedo ao muito que vai mal, pois nada neste mundo muda se não houver quem tente!
Susana Barbosa
1ª Signatária do Partido da Liberdade
(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)

4 Comments:

At 10:51 da manhã, Blogger isabel mendes ferreira said...

do inferno!!!!


da impunidade.


_____________beijo-te.

Querida Su.

 
At 9:22 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Há muitos anos atrás, era eu, então, um estudante acabado de sair da instrução primária, assisti a uma cena que me marcou profundamente. Por uma estreita, mas movimentada rua do centro histórico da minha cidade, seguiam pai e filho, este, entre os vinte e cinco e os trinta anos e aquele, já próximo dos setenta. O pai corria, a pequenos passos, acossado pelo filho, que o apressava com insultos e empurrões.

De uma outra cena me recordo, acontecida muito anos depois. Esperando a minha vez de ser ouvido, como testemunha, num Tribunal Criminal, assisti à passagem dos réus do julgamento que antecedia aquele para que fora convocado. Eram dois adolescentes, peritos em roubarem “cassetes” dos automóveis. Familiares e amigos aplaudiam-nos, à passagem, e eles sorriam e agradeciam, como se, de heróis, se tratassem.

Ocorreram-me estas memórias ao ler este artigo sobre a Casa Pia. Penso que nunca soubemos, enquanto Povo, educar convenientemente os nossos filhos. Recordando a primeira das duas cenas atrás descritas, não me causa admiração nenhuma ouvir, hoje, defender a eutanásia e o “depósito” dos “velhos” em qualquer instituição. A outra, permite-me perceber o porquê da violência, tida como natural, de uma juventude capaz de matar, à facada, os seus iguais.

Receio, sobretudo, pelo meu País, pela minha Pátria, que me parece incapaz de inverter esta apressada correria para o abismo. É necessária uma educação assente em Valores, reabilitando, sobretudo, o conceito de Honra, que tão arredado está da nossa vivência. Cabe-nos, a nós que somos pais ou educadores, dar os exemplos, sem os quais toda a teoria é vã. E, aí, é que “bate o ponto”: a falta de exemplo é o que não falta! A começar por quem nos governa!

 
At 12:05 da tarde, Blogger hfm said...

Da injustiça em que se tornou a nossa justiça!

Um grande beijo.

 
At 7:48 da manhã, Blogger Pedro Monteiro said...

D.Susana
Um santo e feliz Natal na companhia de quem lhe é mais querido!
*bjs*

 

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