sexta-feira, abril 13, 2007

Manuel Monteiro «Aveiro tem dado a ganhar muito a vários políticos» sem colher benefícios

Com a devida vénia ao Diário de Aveiro

Depois de ter chegado à presidência do CDS com apenas 29 anos, Manuel Monteiro é, desde 2003, líder do Partido da Nova Democracia (PND), que nas últimas eleições legislativas, em 2005, foi apenas a sétima força política mais votada (39.999 votantes, 0,7 por cento). Actualmente com 45 anos, Manuel Monteiro não esconde a ambição de fazer crescer o PND à custa dos partidos à sua esquerda. A entrevista ao Diário de Aveiro e à Aveiro FM foi concedida na terça-feira, dia em que Paulo Portas iniciou em Aveiro a campanha para a liderança do CDS/PP

A sua visita a Aveiro acontece no mesmo dia em que Paulo Portas inicia em Aveiro a sua campanha para a liderança do CDS. É coincidência?
Não é coincidência, é de propósito. Um problema central na política é a credibilidade. Tenho previsto vir a Aveiro diversas vezes, mas vir hoje tem um significado político no dia em que, à minha esquerda, o CDS inicia um processo eleitoral para eleger o próximo presidente. Eu venho aqui no mesmo dia que o dr. Paulo Portas – ele que descobriu Aveiro como cidade política pela minha mão, quando em 1995 o convidei a ser candidato a deputado por este circulo eleitoral – para procurar marcar a diferença.

Que diferença pretende marcar?
Não faz sentido que haja pessoas que, em nome das conjunturas, confundem o legítimo direito de mudar de opinião com a nítida necessidade de constantemente mudarem de posição. Temos políticos em Portugal que sistematicamente mudam de posição, tanto à esquerda como à direita. Os partidos à direita do PS têm beneficiado de um certo adormecimento de memória – porque as pessoas às vezes esquecem-se do que aconteceu – e vão votando. O que acontece é que Aveiro tem servido para guindar um conjunto de políticos do primeiro plano do patamar nacional, mas não significa que Aveiro tenha beneficiado com isso. O dr. Paulo Portas foi e é deputado por Aveiro, mas enquanto era deputado era vereador na Câmara Municipal de Lisboa e a meio do caminho candidatou-se ao Parlamento Europeu. O dr. Marques Mendes, também deputado por Aveiro, está a fazer agora uma campanha contra a OTA esquecendo-se que foi o primeiro-ministro Barroso (com Marques Mendes e Paulo Portas) que mais pressão fez em Bruxelas para que os fundos comunitários a favor da Ota fossem aprovados. A minha vinda a Aveiro é propositada, porque a política não pode continuar a pactuar com a hipocrisia. Não é legítimo que façamos tudo para estar sempre na crista da onda e para podermos sempre dizer o contrário do que dissemos no dia anterior. Aveiro tem dado a ganhar muito a vários políticos, entre eles o dr. Paulo Portas, e não tem beneficiado objectivamente desse apoio que lhes tem dado.

Marques Mendes também já veio a Aveiro sem que o senhor tenha mostrado a preocupação quer agora revela com Paulo Portas. Paulo Portas é o seu alvo predilecto?
Há um espaço de competição. O espaço da Nova Democracia é o PP. Há uma diferença clara entre o CDS e o PP, e eu digo isto na capital do CDS – Aveiro foi sempre a capital do CDS. Eu fui eleito presidente do CDS em 1992 e os CDS’s então não votaram em mim – Girão Pereira, por exemplo, estava ao lado de Basílio Horta. Mais tarde fundei o PP, diferente do CDS: onde o CDS era do centro, o PP era de direita; onde o CDS era um partido da democracia-cristã, o PP era conservador; onde o CDS era europeísta de um modelo federal, o PP era soberanista, anti-federalista... Existiam claras diferenças. Hoje, só se mantém a sigla CDS/PP porque o Tribunal Constitucional não permitiu mudar. A Nova Democracia é, no espaço da direita democrática, aquele que foi o meu desejo e o meu sonho para o PP.

O PND é um partido pequeno. Posicionando-se tão à direita, não teme que tenha pouca margem para crescer?
Penso que não. O PND defende a nação, entende – ao contrário da corrente – que faz sentido defender o debate ideológico, pretende ser um partido de valores... Há um vasto caminho a percorrer para a direita popular que eu quero representar, porque há muitas pessoas que pensam como eu que votam no PSD, no CDS e até no PS. Quando era líder do PP tive eleitores que habitualmente votavam no PCP que aderiram aos meus ideais. Eu acredito na economia de mercado, mas o que temos hoje em Portugal é um capitalismo selvagem; acredito na iniciativa privada, mas o que temos é monopólio de meia-dúzia de empresas, escritórios e famílias, que, à semelhança do que acontecia antes do 25 de Abril, dominam o país. A direita em que acredito permite que todas as pessoas tenham liberdade para montar o seu negócio e criar riqueza, mas assistimos a uma sociedade em que as pessoas que querem investir são cada vez mais proletárias e trabalhadores por conta de outrem e estão cada vez mais pobre. Estamos a assistir a um movimento de globalização e a uma lógica na Europa e no mundo que é favorável a meia-dúzia de pessoas e empresas. Eu vivo pior depois do euro.

Como é que o PND pode crescer?
Através de um contacto mais directo com os cidadãos. Temos um conjunto de quadros extraordinários, mas são pessoas a quem o combate político às vezes ainda causa alguma estranheza. A política precisa deles. A política precisa de pessoas que não precisam da política. Tenho consciência que existe desproporção entre a minha notoriedade e a notoriedade da Nova Democracia, e é através de iniciativas permanentes que a Nova Democracia se pode dar a conhecer.

Aveiro é um distrito importante para o partido?
Muito importante. Nas últimas legislativas, houve quem dissesse que tínhamos sido responsáveis por termos tirado um deputado ao CDS. Não sei se é verdade ou não. Não gostaria que a Nova Democracia fosse conhecida por ser o partido que tira votos ao CDS mas por ser o partido que elege deputados seus. Aveiro é um distrito de aposta da Nova Democracia nas próximas eleições. Não podemos ter a pretensão de concorrer em 2009 para ganhar as legislativas. Há um caminho que tem de ser feito e, nesse caminho, Aveiro – paralelamente com Lisboa, Porto e Braga – é um distrito de aposta estratégica do PND.

Acha que o PND pode eleger deputados já em 2009?
Esse tem de ser obrigatoriamente um objectivo. Aveiro é um distrito prioritário para os nossos objectivos eleitorais em 2009.

Já sabe quem vai ser o cabeça-de-lista por Aveiro?
Ainda não. O círculo eleitoral de Aveiro fez-me um convite para que fosse eu o cabeça-de-lista à frente do PND. A política precisa de credibilidade – eu anunciei recentemente a minha disponibilidade, caso houvesse eleições antecipadas, para ser candidato pelo PND à Câmara de Lisboa; se isso acontecer, não serei candidato a deputado por Aveiro. Não é sério a mesma pessoa ser candidata à câmara por um sítio e candidata a deputado por outro.

E se não houver eleições antecipadas na capital?
É um assunto que não se me coloca. Na minha vida fui deputado por dois sítios – Porto e Braga, este último um distrito com o qual sempre tive uma ligação muito forte, porque vivi lá muitos anos, a minha família materna é de lá, e eu não nego esse apelo em relação ao círculo de Braga. Seria uma honra ser eventualmente candidato por Aveiro... Seja como for, o objectivo é que o candidato seja alguém que ultrapasse as fronteiras da Nova Democracia e que seja um máximo denominador comum.

Até que ponto o actual clima de agitação no CDS pode beneficiar o PND?
Há um clima de agitação a nível geral. No CDS é evidente, e não me surpreende. No PSD a agitação também existe e tanto quanto julgo saber as coisas para o lado do PS também não estão bem; no Bloco de Esquerda há uma lista alternativa à de Francisco Louçã e o único partido estável é o PCP, porque não é muito hábito as pessoas discutirem. A Nova Democracia pode e deve beneficiar com este clima de desagregação que existe nos partidos do sistema. Nós sentimos um descrédito total com a democracia e com o sistema democrático por parte da esmagadora maioria dos cidadãos. Hoje sinto-me mais intranquilo com o meu futuro como cidadão do que há uns anos atrás, porque quem não tiver um pé de meia muito grande provavelmente amanhã corre riscos, e então se tiver de ser operado é o diabo... Necessitamos de uma alteração circunstancial da vida política. Temos a dita esquerda a criar empresas municipais e nacionais, mas a suposta direita muda o quê? Os administradores. Esta não é a minha direita. A minha direita não pode atacar o PS de despesista e de criar empresas municipais para pôr os amigos e depois fazer o mesmo. Que autoridade moral têm o PSD e o CDS para atacar a Câmara de Braga pelo seu despesismo e pelos empregos que dá quando aqui [em Aveiro] faz o mesmo? Aquilo que se passa no CDS não me é indiferente, mas há um campo muito amplo de crescimento para a Nova Democracia que não se esgota no CDS.

Surpreende-o o que se tem passado no CDS?
Não. Estava escrito nas estrelas que mais dia menos dia isto ia acontecer. Sempre tive uma admiração imensa pelo dr. Girão Pereira – é uma pessoa de bem, que eu respeito, foi um dos melhores autarcas do país –, mas espanto-me quando ele se diz admirado com o que aconteceu no CDS. Espanto-me porque isto não é novo para o dr. Girão Pereira – ele viu este mesmo grupo fazer exactamente o mesmo quando ele era da direcção presidida por mim. Só não andou aos encontrões. Espanto-me com este ar de surpresa e quase de ofensa de algumas pessoas do CDS.

Está a falar do grupo de Paulo Portas?
Sem dúvida. Há um grupo de pessoas que nunca consentirá que o seu «status» seja beliscado; há um grupo parlamentar que se entrincheirou, que quer manter os seus lugares...

Ao PND quem é que convinha mais que ganhasse as eleições no CDS: Ribeiro e Castro ou Paulo Portas?
Paulo Portas. É mais vantajoso, pelos bons e maus motivos. Pelos maus motivos, porque há sempre esta expectativa de confronto entre mim e o dr. Paulo Portas, a ideia de que há um ajuste de contas a fazer. Pelos bons, porque é uma oportunidade de fazer uma distinção clara entre a direita da Nova Democracia e aquilo que é o centro-direita do dr. Paulo Portas. O ânimo e a predisposição para o combate serão maiores.

Quem acha que tem mais condições de ganhar?
Penso que vai ser o dr. Paulo Portas, que jamais se candidataria se achasse que iria perder. E não é por acaso que fez tanto finca-pé para que não existisse um congresso.

Como é que pretende tirar dividendos da crise instalada no CDS?
Aquilo que acontece inevitavelmente favorece a possibilidade de eu explicar às pessoas por que é que saí. Não tinha condições para defender o meu quadro de ideias e valores sem ser permanentemente assobiado e sem tentativas de humilhação. Há um grupo de pessoas fundamentalistas, com um comportamento que raia muitas vezes aquilo que verificamos ser a extrema-direita, que aprenderam com Lenine como se dominam assembleias, como se causa enervamento nos adversários... Essas pessoas ficaram muito felizes por eu ter saído, como ficaram muito felizes por ter saído a dra. Maria José Nogueira Pinto.

Até onde pensa chegar como líder do PND?
Eu tenho ambição pelo poder, o que é legítimo. Eu quero ser eleito deputado e acho que se for deputado o país ganha com isso. Se o meu objectivo pessoal fosse ser ministro a qualquer custo, não tinha saído do CDS e eventualmente estava hoje no PSD. Tantos foram para lá! Ou então era administrador de uma determinada empresa, ou vereador ou secretário de Estado. Esse não é o meu objectivo. Gostaria imenso de ser membro de um Governo, com ou sem coligação, mas para pôr em prática ideias em que acredito.

Se tivesse sido eleito por Aveiro, o que teria feito pelo distrito que Paulo Portas ou Marques Mendes, que o senhor tanto critica, não tenham feito?
Há uma questão fundamental que é a defesa das pescas. A defesa do sector foi sempre fundamental para mim. Defender as pescas não é apenas defender a actividade de captura de peixe, é defender a montante e a jusante todo um conjunto de outras actividades económicas. Aveiro é inquestionavelmente um distrito de ponta ao nível do sector piscatório, atendendo nomeadamente aos investimentos e aos esforços consideráveis de modernização da frota. A Associação dos Armadores das Pescas Industriais, presidida por um aveirense, tem sistematicamente chamado a atenção para a fraude política que é o actual ministro da Agricultura e das Pescas, que virou as costas ao sector. Não se vêem pessoas com a capacidade mediática que têm Paulo Portas ou Marques Mendes na primeira linha de defesa do sector. Mas há outro sector, que é o da cerâmica, que está a passar uma situação difícil atendendo à globalização. O distrito de Aveiro tem vindo a perder peso do ponto de vista económico e político, e não deixa de ser irónico que um distrito que perde peso económico e político seja o distrito que tem Paulo Portas e Marques Mendes como cabeças-de-lista de dois partidos políticos.

Maria José Santana e Rui Cunha

9 Comments:

At 5:39 da tarde, Blogger PintoRibeiro said...

Bom fim de semana Susana, bjinho,

 
At 10:48 da manhã, Blogger PintoRibeiro said...

Bom dia, bjinho, Susana,

 
At 10:48 da manhã, Blogger PintoRibeiro said...

( Ando a ler e reler...)

 
At 6:50 da tarde, Blogger Nilson Barcelli said...

Acho que já o disse aqui, mas repito-o:
O Dr. Manuel Monteiro é uma pessoa séria. Talvez seja isso que o impede de se guindar, a ele e ao partido, a uma posição de mais destaque na política nacional. O que é lamentável, mas é o que se constata no dia a dia da intriga política.
Beijinhos.

 
At 7:55 da tarde, Blogger Opintas/Bernardo said...

Bom fim de semana e um abraço.

 
At 10:10 da tarde, Blogger José Alberto Mostardinha said...

Olá Susana:

Sempre tive muita consideração pelo Manuel Monteiro:
Não pefilhando dos seus pontos de vista, sempre o achei uma mais valia para a política nacional ao contrário do Portas que acho um autêntico "flop" e um hipócrita incompetente com todas as letras.
Desejo-lhe um bom fim de semana.
Um abraço,

 
At 7:14 da tarde, Blogger morpheus said...

Uma boa tarde.

 
At 10:34 da tarde, Blogger Vladimir said...

tenho pena que pessoas como o Dr Manuel Monteiro não consigam ir mais além, acima de tudo devido à sua postura vertical e à sua seriedade..

 
At 11:44 da tarde, Blogger martim de gouveia e sousa said...

desavindos no caminho se encontram, como se avindos. bjo.

 

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