quinta-feira, outubro 19, 2006

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...


E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimno, íssimo, íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos

6 Comments:

At 7:44 da manhã, Blogger hfm said...

Sempre! sem cansaço!

 
At 10:39 da manhã, Blogger pintoribeiro said...

Somos dois...bom dia, insistindo, Susana. Bjinho.

 
At 4:42 da tarde, Blogger veritas said...

Olá!

Há que arranjar sempre novos incentivos...mas por acaso estou mesmo a precisar de um fim-de-semana relaxante...

Bjs.

 
At 6:23 da tarde, Blogger Elise said...

A partir de uma certa idade, parece que tudo cansa... Bjos

 
At 6:59 da tarde, Blogger Mendes Ferreira said...

ÍSSIMO ÍSSIMO!!!!!
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beijo-te.

 
At 9:57 da tarde, Blogger mfc said...

Gosto....gosto... gosto!
É formidável.

 

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