quinta-feira, dezembro 21, 2006

O Natal de cada dia…

Faz-se quando o Homem puder.
Hoje mesmo senti que Natal é pouco mais que uma forma de estar, que se alcança ou não, consoante o nosso estado de espírito: com alegria e esperança, se alguma “luz” nos ilumina; com tristeza e desânimo se a dor e a amargura nos invadem, vencendo-nos; ou, simplesmente com indiferença, se arrefecemos e nem o arco-íris vislumbramos, quanto mais o Pai Natal.

Num tempo, em que muito distante mora o verdadeiro espírito natalício, a sociedade em que vivemos confunde tudo, e os seus filhos aprendem que Natal é a melhor época do ano porque se lucra mais… com brinquedos, com roupas, com carros, com dinheiro, sei lá…, com tudo e tão pouco! Uma correria desenfreada às compras parece não ter fim. Um tempo suposto de paz, reflexão, e fraternidade, dá lugar ao frenesim, ao cansaço e ao stress sem fim.
Quando ontem à tarde saía do escritório, fui abordada por duas mulheres ucranianas que andavam pelas ruas de Aveiro a vender bonecas artesanais, típicas do seu país. Diziam-me num português ainda muito atrapalhado, que precisavam de vender porque não conseguiam trabalho e o dinheiro escasseava para se alimentarem. Enquanto falavam e me convenciam a comprar, eu pude perceber a educação e o bom trato com que se apresentavam. Uma era estudante universitária e outra dizia ter um curso de economia. Falavam do Natal do seu país com muita alegria e do hábito de oferecer aquelas típicas bonecas artesanais nesta altura do ano.
Fiquei verdadeiramente impressionada com a esperança daquelas mulheres, que apesar das dificuldades e da distância do seu país, encaravam a possibilidade de uma vida melhor com coragem, com tão pouco ao seu alcance, e com tanta vontade de conquistar. Pensei nas lástimas dos nossos desempregados e na forma como tantos se acomodam aos rendimentos mínimos. Pensei como as bonecas “Barbies”, protótipo das sociedades de consumo, se instalaram de forma obsessiva também por cá, fazendo esquecer as antigas bonecas de “trapos” feitas com materiais reciclados. Pensei como eram possíveis aqueles sorrisos rasgados nas caras daquelas mulheres, que com toda a certeza por tantas agruras da vida estariam a passar.
A vida é portanto tão relativa, quanto relativas são as dificuldades. Alguns que mantêm viva a chama da esperança, lutando, e outros que desistem tão facilmente de lutar. Importa pois, não deixar fugir a força para continuar, e sem ter a pretensão de pensar que isolados podemos salvar o mundo, podemos no entanto em cada dia reflectir mais nos outros e no mundo que nos rodeia. Não adianta querer defender causas humanitárias globais se no nosso dia-a-dia menosprezamos quem passa ao nosso lado necessitando de ajuda, ou mesmo aqueles que vivem connosco e precisam de nós.
Tentemos pois, fazer do Natal uma época de amizade, de fraternidade, de solidariedade, valores por vezes tão esquecidos e tão postos de parte. E façamo-lo em primeiro lugar, com as pessoas que nos querem maior bem, como os nossos pais, os nossos filhos, a nossa família, os nossos amigos, ou até quem sabe, com quem passa por obra do destino ao nosso lado…
Deixo a todos um grande abraço e o desejo sincero de um Feliz Natal!
(Publicado nas edições de hoje do Diário de Aveiro e do Democracia Liberal)

9 Comments:

At 9:21 da manhã, Blogger hfm said...

Belo texto, Susana e desejo-te o que, para ti, for o melhor Natal.
Um beijo.

 
At 10:13 da manhã, Blogger pintoribeiro said...

Pois. Tentemos. Bjinho Susana.

 
At 10:22 da manhã, Blogger sonia r. said...

Boas festas Susana.

Bjinho.

 
At 3:12 da tarde, Blogger alice said...

um dos mais bonitos textos de natal que li. muito obrigada. e boas festas. um beijinho. alice.

 
At 4:52 da tarde, Blogger AC said...

É certo que a visa para a maioria de nós não é fácil. Nunca o foi e a luta por ganhar o pão de cada dia é tão antiga como o mundo. Dizer que é necessário continuar a lutar é uma verdade de La Palisse, mas a gente vai esmorecendo.

Cara Susana,
Aqui d’Aldeia, formulamos Votos de um Feliz e Santo Natal a todos os nossos Amigos e suas Famílias. Prendas no sapatinho, bacalhau na mesa e muita alegria que a época é de Festa!

Cumprimentos,

 
At 4:53 da tarde, Blogger AC said...

perdão, a vida...

 
At 6:08 da tarde, Blogger lagarta said...

Diáriamente venho ao seu blog, gosto muito. Continue.
O Natal é uma época de consumismo, ninguém pensa que devia ser sempre Natal apesar de muitos o dizerem...
Bom Natal saúde e paz.

 
At 7:15 da tarde, Anonymous António Veríssimo said...

Gostei muito do seu texto e dos pensamentos que revela sobre o Natal.
Feliz Naral e Boas Festas.

Se quiser, visite-me em www.sol.pt/blogs/averissimo ou em www.sol.pt/blogs/politika.

 
At 2:45 da manhã, Blogger Terra & Sal said...

Olá Susaninha:

Até parece que estou zangado consigo ou com o seu Blog, mas não, tenho andado por aí indisciplinadamente...
Vim cá hoje, esforcei-me com prazer para vir no Natal, nesta data festiva em que nasceu o menino Jesus, branquinho e de olho azul...
O que, diga-se, deve ter sido um caso único, para aqueles lados...
Isso foi uma coisa que sempre me intrigou...
Desde garotito e quando me apercebi das terras e das raças predominantes, achava aquilo estranho...
Assim como achava estranho nunca ver santos pretos, nem que fosse um para amostra, mesmo muito pobrezinho...
Mas na minha inocência, infelizmente já discriminatória, achava que Deus, os santos, o menino e a Mãe, não podiam ser pretos, escuros, vulgares...
Pensar isto era para mim um raciocínio estúpido, era mesmo...
Não tinha pés nem cabeça serem pretos, ou até, serem assim meios escuros.
Pensava mesmo que só de me lembrar disso já estava a cometer um pecado mortal...
Ainda hoje me vem isso muitas vezes à cabeça...
Mas agora já sinto mais conforto. Embora continue a ver santas angelicalmente branquinhas e o Menino Jesus, sempre lindo e loirinho.
Mas o conforto vem dos bispos e cardeais escurinhos e outros mesmo pretinhos que vejo no Vaticano seguindo fielmente os conselhos que Deus deixou na Terra.
Já é consolador constatar isso...
E com o tempo e a Graça do Senhor ainda hei-de chegar a ver meninos Jesus e santinhos pretinhos nos presépios...

Gostei do seu post e da história que descreveu amiga Susana.
Há pessoas que são felizes com pouco, são mesmo as mais felizes...
Outras, infelizmente, nem possibilidades têm para serem felizes com esse pouco...
Outras são infelizes apenas porque são insaciáveis de tudo...
Nada lhes chega para satisfazerem as suas vontades supérfluas e os seus frívolos caprichos.
Todos conhecemos uns, outros, e os outros, é o mundo que temos, que criaram, e nós, cada um à sua maneira, deu uma ajudinha para isso...
Quem sabe se o menino Jesus fosse pretinho ou até só um bocadinho escuro se a coisa não seria melhor?
Mas não é...
Pode ser que um dia Ele, na sua infinita bondade, nos envie um irmão diferente dele, sem olho azul, para que ninguém, como eu, reclamar...
Bem, hoje fui atrevidote aqui no seu belo Blog que nos deu um ano de coisas boas e também de muitas críticas não contestadas...
É assim, está a ver?
Uns têm “sorte”...
Outros nem por isso...

Mas estamos em festa e vim aqui compartilhar este bocadinho de Natal consigo.
Quero que tenha um Natal cheio de saúde,alegria e muito amor junto dos queridos do seu coração e que o Novo Ano lhe dê tudo o que almeja para si e para os seus amiga Susana.
Um beijinho e
Festas Felizes

Terra & Sal.

 

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