sexta-feira, janeiro 27, 2006

Versos Pobres - 1949

XL

Sou carne viva e sombra. Rezo e grito!
Queima-me os pés o fogo sempiterno,
Beija-me a fronte a noite do infinito.
Em baixo, o abismo trágico do Inferno,
Em cima, o azul quimérico e bendito;
E entre a manhã divina e o triste Inverno,
Entre uma prece e um grito, me consumo,
Mísero facho a arder que só dá fumo.

LIX

O homem actual
É um ser material
E descoberto,
Que vê, por dois buracos da caveira,
Lá em cima, uma geleira,
E, cá em baixo, um deserto.

LXVI

Ó poeta intimamente confundido
Em torva multidão misteriosa,
Em ti, um novo Deus amanhecido
É ainda vaga nuvem fabulosa.
Nas formas vãs da tua sombra escura
Desponta uma infinita criatura...

LXX

Ó saudade, ó saudade
Que nos meus olhos és perfeita claridade...
Sombra humana que em si contém a luz divina.
Ó veio de água cristalina,
Onde esta sede de infinito saciamos!
Lira da nossa melodia...
Árvore da tristeza, com os ramos
Floridos de alegria.

LXXV

Esse calor primeiro que enternece
O ar azul e a terra já florindo...
A aurora que nos altos aparece,
Os sapos, no crepúsculo, carpindo,
Aquele velho muro onde enverdece,
A hera que o sustenta e vai cobrindo,
Tudo de ti me fala. E a tua imagem
Vaga através de mim, que sou paisagem.

LXXVII

Riso etéreo
Que cintila
Na universal escuridão tranquila
Do mistério.

Teixeira de Pascoaes

3 Comments:

At 11:18 da manhã, Blogger hfm said...

Sempre bom ler, reler Pascoaes.

 
At 12:33 da tarde, Blogger isabel mendes ferreira said...

versos ricos.


b.e.i.j.o.

 
At 8:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Very cool design! Useful information. Go on! Naled pamela anderson

 

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