domingo, outubro 30, 2005

Homem Cristo - Um aveirense a recordar


O Dr. Francisco Manuel Homem Cristo nasceu em Aveiro, em 8 de Março de 1860, e aqui faleceu em 25 de Fevereiro de 1943.

ESCRITOR E JORNALISTA
Em 29 de Janeiro de 1882 saiu o primeiro número do semanário “O Povo de Aveiro”, que logo se manifestou de linguagem contundente, violenta, crítica, vigorosa e sarcástica. Jornal de grande tiragem, chegou a ser procurado em todo o país, com especial incidência em Lisboa. Homem Cristo foi seu fundador, proprietário, director e quase redactor. Publicou-se regularmente até Abril de 1941.
A propósito das suas qualidades de publicista — também é autor de diversos livros — o sociólogo Léon Poinsard já em 1910, num artigo da revista “Les Documents du Progrès”, afirmava: «Existem na Europa três grandes panfletários: Clemenceau, na França; Maximiliano Harden, na Alemanha; Homem Cristo, em Portugal.» E João Sarabando, em “O Comércio do Porto” de 7 de Junho de 1969, faria dele a seguinte apreciação: «Gigante do panfletarismo, Homem Cristo, que sucedeu em Aveiro a José Estêvão, génio da oratória (...), ambos lutaram até ao sacrifício pelos mesmos ideais, ambos adoraram a sua terra, ambos se devotaram, num puro e intérmino amor, ao seu país.»

INSTRUÇÃO POPULAR
Homem Cristo, exercendo as funções de capitão no Regimento de Infantaria n.º 14, em Viseu, verificou que, numa Companhia, apenas três soldados sabiam ler e escrever. Em face disto, resolveu ser professor do ensino primário, dentro do quartel, nas horas vagas da instrução militar. Porque o ensino elementar era tido como problema absolutamente secundário, a iniciativa foi vista com indiferença, senão mesmo com manifesta má vontade. Mas Homem Cristo acabaria por ser louvado.
Na batalha da instrução popular, teve de se enfrentar com diversos, mesmo Aquilino Ribeiro, Alfredo Pimenta, Querubim Guimarães. Homem Cristo, no seu jornal, logo rebatia as opiniões contrárias, servindo-se das palavras e do estilo que lhe eram próprios. Foi um dos pioneiros acérrimos do ensino alargado a todos, o futuro dar-lhe-ia razão, mas muito depois da sua morte.

PORTO DE AVEIRO
Homem Cristo foi director da Junta Autónoma da Ria e Barra de Aveiro, desde Fevereiro de 1925 até 10 de Dezembro de 1930. Durante esse período, lutou activa e persistentemente pelo melhoramento da nossa barra, em ordem a esta finalidade, pretendia-se a construção de paredes que evitassem o assoreamento do porto. Assim, mercê de grande teimosia, Homem Cristo viu aprovado o projecto das obras pelo Governo Central, em 6 de Outubro de 1930, com base no estudo preliminar apresentado, em 1927, pelo Engenheiro Von Hafe.
A empreitada da execução do plano do porto exterior (paredes até à «meia laranja») foi adjudicada em 5 de Abril de 1931, a inauguração oficial do importante melhoramento seria em 16 de Outubro de 1932, com a presença do Presidente da República. A campanha de Homem Cristo culminava assim num rotundo êxito. Aveiro moderno nasceu da melhoria da sua barra, motivada pelas obras de 1930 (antes e depois), realizadas com o impulso indomável deste grande aveirense.

DIOCESE DE AVEIRO
Por 1930, iniciou-se em Aveiro uma outra campanha, que culminaria na restauração da Diocese de Aveiro, em 1938. Homem Cristo, apesar de se dizer agnóstico e livre-pensador, pôs-se ao lado dos católicos, que suspiravam por ter um bispo em Aveiro. O seu primeiro artigo, em «O Povo de Aveiro», data de 9 de Outubro de 1932.
Sentindo-se profundamente identificado com as aspirações que engrandecessem a nossa terra, nunca lhe poderia ser alheio tal desejo. Pelo contrário, com a restauração da Diocese, Aveiro lucraria mais um pouco na sua importância e autonomia. Criar-se-ia mais um seminário, que seria uma escola de formação e de ensino, os católicos aveirenses continuariam sujeitos ao bispo de Coimbra e o nome de Aveiro repetir-se-ia em dezenas e dezenas de igrejas, na região da nova Diocese.

Homem Cristo teimava com os seus correligionários, refutava quem o contradissesse, explicava-se perante todos, extravasava sobretudo o seu arreigado aveirismo: «uma migalha que se acrescente a Aveiro, mesmo que seja minúscula, é sempre bem-vinda».