quinta-feira, setembro 08, 2005

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sózinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

3 Comments:

At 12:25 da tarde, Blogger Pinto Ribeiro said...

...a ouvir a belíssima "a beautiful winter" do steve turner enkuanto chove a potes...bom dia, se for. anda tudo meio deprimido e melancólico na bloga, ou é só impressâo minha...

 
At 10:27 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot!
»

 
At 1:58 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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